Administração do Tempo

Em matéria de administração do tempo – entre tantas outras coisas – eu sou uma catástrofe. E quando chega o verão a coisa piora, e piora muito. O calor de Porto Alegre me empurra para as noites. Explico: já sou normalmente tendente a viver mais intensamente nas noites, portanto, um notívago. No verão, quando os dias se tornam praticamente insuportaveis em Porto Alegre, começo a trocá-los pelas noites, durmo durante o dia, acordo de noite, quando a temperatura senão é razoável é suportável.

Uma mistura de calor com uma dose fatal de alta umidade do ar torna o ar de Porto Alegre irrespirável no verão, ao menos para quem está fora de um ambiente com ar condicionado e durante o período de atividade solar. Restam as noites. Mas viver de noite não é uma tarefa das mais simples. Muitas tarefas não podem ser executadas de noite, há que se respeitar a lei do silêncio, o sono dos outros, que não tem a menor culpa da minha insônia nem de ninguém.

Tudo deve ser feito na surdina, com vagar e cuidado. Um simples abrir de porta, girar uma maçaneta, pode provocar o atrito de metais pouco lubrificados e emitir um crééééééééé terrível. Chega a doer, o barulho se amplifica aos ouvidos de quem o provoca na calada da noite. Esse é um tempo de andar com uma lata de óleo lubrificante em spray sempre a mão, pronta para atirar.

Durante as noites a vida pára, congela, hiberna – sei que não são palavras muito apropriadas para descrever a inatividade provocada pelo sono, mas gosto de usar essas expressões gélidas que me trazem a agradável recordação dos dias frios do inverno – você se torna um ermitão, uma alma penada a varar silenciosas e solitárias noites.

Mas não tem jeito. Resta esperar pelo renascimento nos venturosos dias do próximo outono…

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