Monthly Archive for November, 2008

Leão não come leão

O interessante de se notar nessa recente crise que abala os mercados financeiros mundiais é a atitude dos governos. Todos sabem que a razão da crise é a incapacidade dos tomadores de empréstimos imobiliários nos USA de honrarem as suas dívidas.

Para socorrer o sistema o governo usa o dinheiro do povo, dinheiro público, ficando com os chamados “títulos podres”, e sem garantias de que um dia irá ser ressarcido desses valores.

Os tomadores dos empréstimos perdem as casas (pelo não pagamento do empréstimo hipotecário), o governo (leia-se, o povo) perde o seu dinheiro e aqueles que agiram irresponsavelmente na concessão dos empréstimos saem beneficiados.

Eu pergunto: porque não socorrer os tomadores dos empréstimos diretamente? Inclusive pela possibilidade de só ajustar o valor das prestações de modo que pudessem continuar pagando normalmente as suas dívidas? Parece que o governo só existem para proteger os poderosos…

Para ser feliz

Está difícil de ser feliz nesse país do jeito como as coisas estão, principalmente na área da segurança. Só se ouve “entendidos” com propostas mirabolantes para resolver o problema, gente sem vivência do assunto, teóricos, faladores, gente que não faz a menor idéia daquilo que estão falando.
 
Professores universitários, técnicos de uma área inexistente, pesquisadores de um campo sem dados. Os verdadeiros profissionais da área continuam calados. Não são ouvidos porque não são doutos na matéria, são só gente que trabalha e/ou trabalhou durante 20, 30 ou 40 anos na área. Possuem a experiência prática, e mais, possuem a prática do antes e do depois.
 
Qual antes e depois? Do antes que as forças policiais perdessem o respeito e do depois, da falta total de respeito com a polícia, com a justiça, com as autoridades, com o Estado, com as leis. Vestiram na polícia a máscara do pavor reacionário que nutriam pelos governos ditatoriais, enfraqueceram-na como uma forma de enfraquecer o poder da autoridade no país. Aumentaram na outra ponta os direitos individuais, elevaram-nos quase ao infinito.
 
Agora é politicamente incorreto falar nisso; a constituição “redentora” de 1988 fez os índices de criminalidade dobrarem imediatamente no país (é só conferir qualquer estudo estatístico sério). A lei que garante o cidadão, garantiu também o marginal, foi o que ocorreu. Agora a criminalidade corre solta e sem controle. Eu não acredito que o Estado tenha condições de retomar as rédeas da situação. O futuro? ……

The’re still alive?

O título é provocativo e se refere a aparição em terras tupiniquins de certos grupos de rock que fizeram (no passado, é isso mesmo!) sucesso no fim do século passado. Muitos deles provoca esse tipo de reação de minha parte: “Eles ainda estão vivos?”

Essa preferência pelos nossos palcos não é verdadeiramente caso de preferência, mas questão de sobrevivência. Sem condições de obterem cachês minimamente aceitáveis no mundo civilizado (ou no primeiro mundo, ou no único mundo que pode ser considerado mundo), eles, não sem antes se certificarem que os nativos não são antropófagos, vem para cá.

Nossa imprensa faz o trabalho de recuperação dos ancestrais registros históricos da passagem deles pelo planeta. Publicam algumas fotos já amarelecidas pelo tempo, relembram alguns hits dos bons tempo e pronto! Depois é só abrir as bilheterias e esperar pelos fãs. Sim! Acredite, aqui ainda há fãs desses astros que o mundo esqueceu.

Aqui os fãs clubes resistem a tudo, resistem ao tempo, resistem ao ostracismo dos seus astros, resistem até a uma bomba nuclear. Dizem que nos locais ermos da amazônia ilegal (e ela não é toda repleta de ilegalidades?) desmatada e abandonada, foram encontrados fãs clubes de vários artistas que o mundo esqueceu, inclusive os de Jerry Adriani e de Wanderley Cardoso.

Há os defensores da tese de que “antes tarde do que nunca”. Tem sua validade, eu acrescentaria outro ditado que também se aplica: “sempre há um pé torto para um chinelo roto”.

Ciladas Literárias

Nessa semana compareci na Feira do Livro de Porto Alegre, evento literário que se realiza anualmente na Praça da Alfândega, ponto central da cidade, e que se compõe básicamente de estandes onde livrarias e editoras expõem obras literárias ao público. Isso diz muito, mas não diz tudo sobre o evento, que possui ainda atividades voltadas aos autores e leitores – sessão de autográfos, mini-cursos literários e coisas do tipo.

A atividade pode parecer comum, trivial, visitar uma feira literária. Mas não se engane, a atividade é muito mais complicada do que parece. Como em qualquer feira, as barracas estão lá, os produtos estão expostos nelas, e as armadilhas também! Não pense que qualquer livro é uma obra literária, não é assim que a coisa funciona, não se pode julgar um livro pela capa e por um impressionante maço de páginas. Certo?

É claro! Há que se observar o conteúdo. Há muito objeto estranho e não identificado que se metamorfoseia como livro, mas livro não é. Você vê, por exemplo, uma obra sobre culinária, imagina que é um livro, mas não é, é um compendio de receitas, um manual de cozinha. Algo equivalente ao manual de instruções do seu microondas. Talvez pior, no manual ainda há algumas frases.

E há outras armadilhas! O que dizer da mal intitulada (e falada) “literatura de auto-ajuda”? Não discuto, os livros podem ajudar tudo, menos o seu enriquecimento literário. Ando pensando em escrever uma obra a respeito: “Como identificar e se manter a uma distância segura da perigosa literatura de auto-ajuda”.
E existe muito livro de figurinhas, de fotografias, enciclopédias, dicionários, manuais de tudo e sobre tudo, perigosas autobiografias, perigosas biografias de outrem, falsos escritores, escritos falsos, etc. Sabe do que mais? Considerando tudo, uma visita a uma dessas feiras pode ser uma atividade de alto risco!

Teimosia ou oportunismo?

Essa resistência sistemática do governo norte-americano em reconhecer o óbvio – que o nosso planeta está com desequilíbrio ambiental – e que daí provém o tão sentido  na pele e propalado aquecimento global cheira mais a oportunismo do que a teimosia. Difícil é aceitar que um governo tão bem informado como o norte-americano desconheça essa realidade.

O que parece evidente é que é conveniente desconhecê-la nesse momento. E isso já são outros quinhentos. O que ninguém desconhece é que o ajustamento a uma política ambiental de parte da economia norte-americana sairá caro para o consumidor americano, criando desgaste político para os republicanos – já bastante desgastados.

A saída adotada foi a de ir empurrando com a barriga, protelando a tomada de um decisão necessária. Só espero que o planeta possa esperar esse tanto.

Comemorando

Hoje terminei um longo tratamento de um ano que me proporcionou voltar a enxergar plenamente. Passei um ano com o sentido da visão reduzido, vendo alguma coisa entre 90 e 10%, resultado de uma catarata que, ao final não permitia mais que eu lesse, assistisse televisão e que dificultava até uma frugal caminhada.

Sempre vale aquela verdade que fingimos saber, mas que, em realidade, não sabemos enquanto não vestimos a pele do lobo: só sabemos dar o devido valor às coisas quando as perdemos. E não adianta apregoar essa verdade, ou tentar imaginar como seria, ou tentar transferir a experiência. É coisa que só se mesura na pele.

Voltei a enxergar e, posso dizer com satisfação!, voltei a enxergar melhor do que antes. Com a cirurgia livrei-me de uma miopia, eliminada pela introdução de prótese com lente corretiva. Peço perdão aos eventuais entendidos na matéria pela utilização de algum termo incorreto, a verdade é que pouco ou nada sei sobre o assunto.

Mas sei muito da grande satisfação e da felicidade que estou sentindo agora. Meus agradecimentos ao Doutor Rodrigo Lindenmeyer e sua fantástica equipe pelo milagre, que Deus os abençoe.

Alhos e Bugalhos

Vou escrever sobre o que não entendo e, confesso que não gosto disso, sempre fico mais confortável quando domino, mesmo que parcialmente, o assunto em questão. Na verdade eu pouco sei, mas tenho uma opinião, o que diz muito sobre o que vou dizer e, mais ainda sobre o que você vai ler: não leve muito a sério, questione, investigue, e reflita.

Muito se fala sobre a necessária separação entre a Igreja e o Estado, sob a ótica da necessidade de se ter um estado laico, múltiplo, e que seja respeitador das liberdades individuais. Não discuto a validade, aceito a norma em nome de um bem que muito prezo, a liberdade. Não há como o estado se intrometer em matéria de foro exclusivamente pessoal: a crença de cada um.

Até, e inclusive, a possibilidade da crença na descrença, eis que, creia-me, ninguém é obrigado a crer. O que me lembra da ocorrência do exatamente oposto a esse dogma nos estados totalitários, os quais costumeiramente obrigam todos a não crerem, ou seja, exigem a adoção do ateísmo. Isso para cumprir uma das teses defendidas por Marx, a de que “a religião é o ópio do povo”. E, ópio por ópio, eu diria mais, diria que “o comunismo é o ópio do mundo”.

Resta saber até que ponto religião e estado tem objetivos comuns, ou dentre os objetivos dessas duas realidades, se existem propósitos comuns. É bom salientar que isso independe de crença ou de fé, já que se trata de critério objetivo. Certamente que já transparece na nossa constituição, afirmativa que compromete a idéia de um estado laico: Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático… (…) …promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”

Se a afirmativa constitucional desse “Deus” pode ser considerada como filosófica (Deus aparece apenas como a crença numa entidade superior que nos inspire e proteja), ela não deixa de ser uma profissão de fé. Além disso, em vários outros momentos encontramos a influência da religião – e aí no caso uma religião específica, i.e., o Cristianismo – no estado: nas leis (contra o aborto ou contra a pena de morte), nos feriados religiosos, na colocação de crucifixos nas salas dos tribunais, e até no “Deus seja louvado” presente das notas do Real.

O assunto é controverso e polêmico. Eu sou católico, mas não creio que seja certo qualquer interferência religiosa no estado, e isso para que se preserve a igualdade entre todos.

A falácia dos revolucionários

Nossos ditos revolucionários de esquerda não passam de rótulos com o qual escondem a essência burguesa das suas essências. São todos pregadores de teorias que não vivem e, pior do que isso, nem de longe pensam em viver um dia. Pensar que um dia aquilo que pregam possa tornar-se realidade causa-lhes arrepios.

Sociedades igualitárias ao bom estilo cubano, onde a população vive com talões de racionamento, constitue-se no pior dos pesadêlos dessa gente. Continuam defendendo essas teorias escudados na perspectiva inexistente que o país um dia – que Deus os livre e guarde! – possa adotar na prática essa política.

E com é bom viver como um burguês capitalista enquanto se defende as delícias da igualdade cubana! Eu que não defendo a tese dessa gente, sempre digo que tenho pouco a perder, eis que vivo com recursos limitados e, mesmo que o meu nível de vida seja muito melhor do que a de um cubano, não existe um abismo entre as nossas realidades. Essa gente com esse pensamento moderno e legal devem ter realmente muito medo de viver aquilo que defendem.

Já imaginaram gente como Chico Buarque, Oscar Niemayer e outros próceres defensores desses regimes vivendo a vida como cubanos?   

Evolução

Estou evoluindo. Os sinais são tênues, quase imperceptíveis. Mas, em se tratando de mim, são marcos que não podem ser ignorados, detalhes importantes na trilha evolucionista da minha personalidade. Só quem me conhece há milênios é capaz de julgar a importância do fato.

Pequenos atos banais, coisas que passariam despercebidos na vida das chamadas pessoas normais. O último deles foi a troca da caneca em que tomo o meu café. Uma tradição secular, veja que era praticamente impossível me enquadrar numa foto em que não aparecessa ela, a velha caneca azul.

Um azul histórico, do tempo em que ela ainda era azul. Agora já era uma cor soviética, russa, uma mistura de tonalidades sem registro em nenhuma tabela dos matizes conhecidos. Pior, ela não tinha a nobreza e a eternidade das cerâmicas, era de plástico, revestida desse material sobre alguma coisa que lhe conferia a propriedade de ser térmica.

E isso ela sempre manteve, alterou a cor, é verdade, mas sempre se manteve térmica, quente. Uma longa sucessão de dolorosas queimaduras na língua comprovam o fato. Ela nunca negou fogo, literalmente. Pois hoje, depois de muito considerar sob a permanência ou não da velha russa ao meu lado, com uma dor no coração, finalmente me divorciei dela.

Nunca mais seremos vistos num mesmo enquadramento. Nem sei qual o destino que a velha caneca terá nesse mundo descartável de plásticos indestrutíveis. Talvez vire bebedouro de pardais. Talvez um depósito de lápis e canetas, ou ainda um destino menos nobre, melhor nem pensar. A fila anda…

A cidade e eu

Hoje fui ao centro da cidade. Já fazia um bom tempo, não gosto de aglomerações, sempre vou ao centro quando não há uma alternativa viável no bairro. Continuo defendendo que a grande cidade é uma idéia que não deu certo, fracassou na impossibilidade de se administrar eficientemente o gigantismo. E nem necessita ser tão gigante para se tornar um tranbolho inadministravel, creio basta susperar os 400 mil habitantes.

É um ponto de vista, reconheço. Muitos gostam e defendem as megalópoles. Mas eu vejo que as culturas mais antigas descobriram essa verdade na própria carne. A pequena cidade na Europa é uma realidade, onde são poucas as cidades que escaparam desse controle – praticamente limitadas às capitais dos países.

Nas megalópoles os problemas ganham uma aceleração exponencial, desfavorecidas por um dos piores atributos da nossa raça: o efeito manada. As aglomerações são estúpidas, incontroláveis e suscetíveis às piores atitudes que você possa imaginar. Quem já passou pela desagradável sensação de estar no meio de uma massa descontrolada sabe do que eu falo.

Se Porto Alegre tem um centro que não difere muito de nenhum outro – ao menos nos problemas comuns aos grandes centros: sujeira, mau cheiro, poluições sonora, visual e do ar, insegurança – confesso que notei um certo ar de abandono na cidade. Desde a última vez que estive no centro, posso dizer que o ambiente involuiu, piorou. Não sei dizer se fruto de descuido da administração municipal e/ou do aumento dos problemas.

Foi um passeio frustrante.