Vou escrever sobre o que não entendo e, confesso que não gosto disso, sempre fico mais confortável quando domino, mesmo que parcialmente, o assunto em questão. Na verdade eu pouco sei, mas tenho uma opinião, o que diz muito sobre o que vou dizer e, mais ainda sobre o que você vai ler: não leve muito a sério, questione, investigue, e reflita.
Muito se fala sobre a necessária separação entre a Igreja e o Estado, sob a ótica da necessidade de se ter um estado laico, múltiplo, e que seja respeitador das liberdades individuais. Não discuto a validade, aceito a norma em nome de um bem que muito prezo, a liberdade. Não há como o estado se intrometer em matéria de foro exclusivamente pessoal: a crença de cada um.
Até, e inclusive, a possibilidade da crença na descrença, eis que, creia-me, ninguém é obrigado a crer. O que me lembra da ocorrência do exatamente oposto a esse dogma nos estados totalitários, os quais costumeiramente obrigam todos a não crerem, ou seja, exigem a adoção do ateísmo. Isso para cumprir uma das teses defendidas por Marx, a de que “a religião é o ópio do povo”. E, ópio por ópio, eu diria mais, diria que “o comunismo é o ópio do mundo”.
Resta saber até que ponto religião e estado tem objetivos comuns, ou dentre os objetivos dessas duas realidades, se existem propósitos comuns. É bom salientar que isso independe de crença ou de fé, já que se trata de critério objetivo. Certamente que já transparece na nossa constituição, afirmativa que compromete a idéia de um estado laico: Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático… (…) …promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”
Se a afirmativa constitucional desse “Deus” pode ser considerada como filosófica (Deus aparece apenas como a crença numa entidade superior que nos inspire e proteja), ela não deixa de ser uma profissão de fé. Além disso, em vários outros momentos encontramos a influência da religião – e aí no caso uma religião específica, i.e., o Cristianismo – no estado: nas leis (contra o aborto ou contra a pena de morte), nos feriados religiosos, na colocação de crucifixos nas salas dos tribunais, e até no “Deus seja louvado” presente das notas do Real.
O assunto é controverso e polêmico. Eu sou católico, mas não creio que seja certo qualquer interferência religiosa no estado, e isso para que se preserve a igualdade entre todos.