Sabedoria


 

Diz a conhecida Oração da Sabedoria:

“Deus me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para modificar aquelas que podem ser mudadas e sabedoria para reconhecer a diferença. God grant me the serenity to accept the things I cannot change; courage to change the things I can; and wisdom to know the difference. (The Serenity Prayer - Reinhold Niebuhr).”

 

Pois bem, segundo essa oração, está me faltando tudo: serenidade para aceitar o que não posso mudar, coragem para mudar o que eu poderia mudar e - principalmente! - sabedoria para reconhecer a diferença.

Ouvi a Ministra Chefe da Casa Civil do Governo Federal, mãe Dilma, justificar o projeto das propinas oficiais a serem pagas aos funcionários públicos que se empenharem para que as obras político-eleitoreiras do PAC fiquem prontas antes da campanha de 2010.

Dito assim, tudo bem. Para quem pensa - e poucos pensam nesse país - a frase é um achincalhe com o governo e com o povo. A ministra reconhece várias coisas: que o funcionalismo federal é mau pago; que é ineficiente; corrupto e que o governo não está minimamente interessado em prestar um serviço público de qualidade, mas na eleição de 2010.

O primarismo filosófico de mãe Dilma faz juz ao do seu chefe - para quem a saúde no país é quase perfeita. Mãe Dilma deve concordar, agora mesmo, vejo ambulâncias aéreas e todo um aparato governamental colocado a sua disposição para o seu tratamento, coisa que qualquer comum do povo sabe que tem a sua disposição quando procura as unidades do SUS.

E eu fico falando nessas coisas. Eu já deveria tê-las aceitado serenamente. Coisa de quem é pouco inteligente. 

Verdades

Um episódio ocorrido no Senado Federal (mais um!) essa semana me lembrou o famoso personagem de Chico Anísio: o deputado “Justo Veríssimo”, figura que se tornou conhecida pelo bordão: “Eu quero que o povo se exploda”. Parafraseando a figura criado pelo comediante, o deputado federal Sérgio Moraes do PTB do  Rio Grande do Sul, qie perguntado sobre uma eventual repercussão negativa pela posição - como relator do processo - de defesa aberta do investigado (o deputado senhor feudal - dono do castelo em Minas Gerais), respondeu que ”se lixa” para a opinião popular.

Mais tarde quis voltar atrás, com a alegação de que tem o estopim curto e falou sem pensar, mas o mal - ou a verdade - já estava escrita na história. O pior de todo esse episódio não é a ofensa disparada pelo deputado, que acusou nosso povo de ser formado por uma multidão de carneiros acomodados e desinformados, o pior é que falou a mais pura verdade.

A verdade contida na afirmação do parlamentar encontra respaldo na reiterada presença de figuras que não saem do cenário nacional, por mais trapalhadas e falcatruas que pratiquem, o povo continua “cordeiramente” os reelegendo para as diversas representaões parlamentares.

Não é diferente da situação que encontramos quando, apesar dos péssimos serviços prestados a população, a massa continua respondendo às pesquizas dizendo que o governo é bom ou ótimo. Se é verdade que cada povo tem o governo que merece - nós não merecemos mais do que essa porcaria que está aí.

Do direito de fazer besteira

A Democracia pode ser definida como o sagrado direito de se fazer besteira. Verdade. Mas antes assim, é preferível errar tentando do que viver sob uma ditadura. Aquele ditado que afirma que a Democracia é o melhor entre o pior é mais do que verdadeiro. Temos o sagrado direito de escolher mal. E exercemos esse direito com gosto.

Não estranhe o fato de eu ter grafado Democracia com “d” maiúsculo, é preciso para reconhecer a importância capital da liberdade que nos afasta das tiranias - de todas elas. Sem ela sempre irão aparecer aqueles que se arvoram no direito de decidir pelos outros. Não precisamos de “painhos”, precisamos de maturidade, inclusive política.

Não há outra forma de aprender senão treinando, errando, votando - mesmo que seja votando mal. Um dia melhoraremos e, como isso, nossa Democracia também.

Esperanças Perdidas

A frase “brasileiro, profissão esperança” diz bem da importância que depositamos na esperança. A esperança nos é tão cara e importante que temos uma viva esperança na esperança. O dito pode parecer redundante, mas não é. Nascer e viver sob o signo da esperança significa aceitar todas as desculpas possíveis e imagináveis para aquilo tudo que não temos, mas que, em nome dessa mesma esperança, um dia, espera-se, teremos.

Em nome dessa esperança é que aceitamos a tese de que somos um país do futuro. Parece pouco, mas ser um país do futuro significa que, mesmo não sendo aquilo que se possa chamar de um país agora, nesse momento, no presente, chegará o dia que, em nome da esperança, finalmente atingiremos esse status e nos tornaremos um país. Ainda seremos, e - parece contido na promessa - seremos grandes.

Quem acredita em alguma coisa, normalmente baseia a sua fé em algo racional, em algo que lhe alimenta a crença. Não é esse o nosso caso. Somos portadores de uma fé cega e sem motivação aparente. Não há na realidade nada que aponte para algum caminho ou que nutra a esperança de quem quer que seja. Ao contrário! Todos os fatos parecem indicar motivos suficientes para o desespero, para a desesperança.

Para comprovar isso não é necessário muito estudo, basta ler um jornal. Quem pode dizer que evoluímos em direção a alguma coisa vendo quem está nas manchetes? José Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello, precisa de mais alguém para ver que muito andamos para ficar sempre no mesmo lugar?

Mas não se aflija, não se desespere. Lembre-se: Nós somos o país do futuro…

Valentine’s Day

Hoje, 14 de fevereiro, é o dia de São Valentim, ou o dia dos namorados nos Eua e em quase em todo o mundo civilizado. Não é o dia dos namorados aqui no Brasil, você sabe por quê? Porque o sindicato lojista achou que o período não era propício para um feriado, perto do carnaval, quando todos estão de férias.

Para que perder uma chance de lucrar com mais um desses famosos “dias de, dias das, dias dos”? Solução? Transferir a comemoração para o mês de junho, inverno, época em que todos estão em casa, e que tem poucos feriados para o mercado faturar.

Agora eu pergunto: como dar credibilidade a essas datas comemorativas? ou devo dizer, consumistas?

O Castelo Brazuca

Depois que descobriu-se que “yes! we have a castle!” falta descobrir quem são os bobos dessa corte. Quem pensou que tinha se livrado da realeza no plebiscito deu com os burros n’água.  Sim, porque “yes, we have a royalty!” E nossa realeza não depende de títulos de nobreza, mas do quanto de grama você consegue, vamos dizer, ganhar.

Nós, os membros da plebe, somos sérios candidatos a bobos nessa corte. Alguns tentam fugir do estigma de “bobos mansos”, ou aqueles que se sabem bobos, mas não abaixam as orelhas. Porque o não ser bobo há muito já deixou de ser uma simples questão de querer, somos todos irremediavelmente trouxas.

Alguns então nasceram pra coisa. Se você é um classe média no Brasil, meus parabéns pela total bobice. Os membros dessa classe são os que pagam todas as contas: a conta da exploração pela companheirada, a conta da politicagem das “bolsas tudo” da companheirada, e até as suas próprias contas, eis que o estado não lhes dá nada em serviços públicos.

E viva os reizinhos! 

Parte é, parte não

Um dos problemas de se viver em um país em que a grande maioria da população é composta por analfabetos formais ou funcionais, é ter de conviver com gente que tende a subestimar a capacidade de pensar de todos.

Não sou gênio, longe disso, mas também estou longe de ser um idiota. Sinto-me diariamente achincalhado ao ter de ouvir algumas das coisas que saem da boca dos nossos políticos ou de quem tem voz ativa nesse país. Alguns parecem estar falando para uma platéia de crianças ou com gente com desenvolvimento mental incompleto.

Ter um olho em terra de cego não te faz um rei, te faz testemunha das barbaridades que se cometem contra os cegos. E pouco adianta querer denunciar. Denunciar para quem? E com que propósito? Se os que enxergam dispensam e os cegos são surdos também!

Remando contra a maré

Remar contra a maré não é tarefa para qualquer um, a maioria se contenta em navegar na correnteza. A analogia vale para quem discorda do pensamento dominante, para quem tem uma opinião que vai contra a opinião geral.

Pois esse foi o caso do economista turco Nouriel Roubini, uma voz que clamava no deserto contra os fundamentos economicos adotados pela maioria dos países, e que previu essa crise gigantesca que estamos atravessando. 

Talvez se deva dar maior importância à Roubini, não pelo que acertou, mas pelo que acaba de prever: segundo ele a crise está muito longe de chegar ao fundo do poço. Ao contrário do que prevem alguns entendidos, Roubini entende que ela vá se agravar ainda mais.

Não tenho qualificação na área, mas é fácil saber que não é pelo aumento do crédito que vai se resolver essa crise de confiança baseada justamente no crédito de alto risco. Vejo todo mundo falar em aumentar o crédito para alavancar a economia. Eu vejo é falta de poder aquisitivo e estímulo irresponsável ao consumo.

Dar dinheiro para quem não irá poder pagar no futuro é mais do que roleta russa, é suicídio. É viável manter a indústria automobilistica viva pelo aumento do prazo nos empréstimos? Ou qualquer outro segmento? O mundo vive o drama da falta de distribuição adequada das riquezas e, devido a ela, falta de capacidade de consumo.

Os americanos alimentaram essa bolha durante anos - e sabiam o que estavam fazendo! - com os empréstimos imobiliários. Aqui no Brasil se faz o mesmo vendendo carros em 84 meses, emprestando dinheiro para desconto em folha de pagamento, dando cartão de crédito para qualquer um, etc.

Todas medidas desse tipo não passam de atitudes desesperadas e que não resolvem nada no fundamento, só empurram o estouro inevitável para o amanhã. E não precisa ser um mago ou um Roubini para prever isso. Quem viver verá!

Gotas Preciosas

Gotas Preciosas era (ou ainda é) o nome de um medicamento fitoterápico fabricado pelo Laboratório Hertz de Porto Alegre/RS. O nome do produto é uma grande sacada: associa aquela ideia de que “os grandes perfumes vem em pequenos frascos” com a ideia de “precioso” - coisa de valor e útil, de grande importância.

Se fosse para escolher um antônimo para a expressão eu optaria por “aos baldes”, para dar aideia de alguma coisa que se obtém em grande quantidade e, por isso mesmo, sem um grande valor. Eu usaria a ideia de balde para se contrapor à de gota.

Vivemos numa época em que as notícias não vem em gotas, mas em baldes, pela necessidade de preencher a pauta dos noticiários com material jornalístico. Não sou jornalista, nem ao menos conheço a matéria, mas acompanhando qualquer espécie de jornal noto que o conceito do que seja matéria jornalística anda muito amplo.

Jornais televisivos e que permanecem 24 horas no ar, são obrigados a “cavar” notícias para os noticiários que se repetem a cada hora. Não existem fatos, mesmo transpondo todas as barreiras geográficas, que dê conta do recado. Resultado: um garoto que se perdeu da mãe num shoping doCazaquistão vira manchete aqui.

São milhões - e são literalmente milhões! - de sites na Internet se encarregam de espalhar as notícias ao redor do mundo. Hoje o que acontece no bairro, na rua já vira notícia instantaneamente e, não demorará muito , para que os acontecimentos de cada casa também se tornarem.

A grande notícia é que as notícias perderam a relevância, qualquer fato corriqueiro - bobagens! - e trivial está parando nas manchetes. Os fatos de alguma relevância passam a ser repetidos à exaustão, as manchetes tradicionais nem se fala. Esse é o caso típico do exagero, quando o mais é acaba sendo menos.

Para quem não tem méritos

Essa onda de mudanças políticas na América do Sul, que indicam um quadro de marcha para as ditaduras do proletariado - comunismo ou qualquer outro desses supostos regimes democráticos que tendem a imortalizar seus ditadores no poder -, preocupam.

Elas cumprem o principal fundamento do regime democrático, pois são mudanças que tem o aval da maioria da população. Entende-se, debruçados no principal problema do capitalismo - sua incapacidade de retirar todos da miséria - o povo passa a desejar a sua sociabilização, um atrativo para quem nada tem.

Infelizmente funcionamos dessa maneira: o fato de não termos nada só é problema se o nosso vizinho tem alguma coisa. Se somos todos igualitariamente miseráveis, tudo bem. Na verdade sabemos que não é exatamente assim, a mudança só se dá na elite dominante: saem os capitalistas e entram os membros da elite do partido.

A única diferença entre os regimes é a mobilidade: uma vez miserável no comunismo, sempre miserável. Mas essa é uma perspectiva que parece não preocupar os eternos perdedores idealistas da igualitária miséria comunista, os regimes capitalistas premiam a capacidade e isso faz toda a diferença entre vencedores e perdedores.